O pouso do contador de histórias


Na praia da Pipa, onde participou do Festival Literário, João Ubaldo Ribeiro
conversou com o colunista de literatura desta TN sobre a venda de livros,
cotidiano e o árduo ofício de ser escritor
Foto: Rogério Vital
O II Festival Literário da Pipa mostrou mais uma vez seu vigor, trazendo para o Rio Grande do Norte grandes nomes da literatura brasileira e universal. Mas sem dúvida, um dos grandes nomes foi o escritor baiano João Ubaldo Ribeiro. Durante toda a semana que antecedeu o festival tentei falar com João Ubaldo, mas em virtude de viagens para cumprir compromissos semelhantes, ele não pode me atender. Porém, já em Pipa, concordou em conversar comigo na manhã de sábado, na Pousada do Coruja, onde estava reunido com amigos. João Ubaldo Ribeiro dipensa apresentações. Somente seus livros Viva o Povo Brasileiro, Sargento Getúlio e O Sorriso do Lagarto já são suficientes para lhe garantir o prestígio que desfruta no cenário da literatura mundial. Além do mais, João Ubaldo é daquele tipo de escritor que detesta falar em literatura. Gosta mesmo é de escrever livros, contar histórias e viver de bem com a vida.

Você gosta de participar desses festivais literários. Isso não toma o tempo de seu ofício de escritor? 

Na realidade eu não gosto. Eu vou quando não posso evitar. Por exemplo, algumas me convidam há anos e eu vou esgotando as desculpas. Aí depois dos oito anos, não tenho mais o que dizer, eu acabo cedendo. Outras vezes é como aqui. Aqui é porque eu tenho grandes amigos, em Natal, que estão aqui. Conheci minha mulher aqui em Natal... Natal faz parte de minha história. Então essa aqui eu viria de qualquer jeito. Mas não gosto não, gosto não. Gosto cada vez menos de viajar. Estou ficando velho e comodista, ficando não, estou velho e comodista.

Como é  seu método de escritura?

Eu acordo, geralmente de madrugada. Aí começo a trabalhar. Geralmente quando estou escrevendo um livro, tenho uma meta de produção. Antigamente eram três laudas. Eu até estava brincando aqui com Geraldinho Carneiro, que está aqui também, a gente brinca com a produção de alguns escritores conhecidos. Então, uma Virginia Woolf seriam 1.200 palavras, umas três laudas por dia. Agora estou fazendo um Conrad, que são umas 800 palavras por dia. Mas se eu passar não vale para descontar no dia seguinte, senão eu começo a me enganar. Tem que ter disciplina.

Você  ainda vende muitos livros?

Atualmente acho que não. Aqui no Brasil eu acho que não. Acho que de ficção este ano não apareceu brasileiro nenhum nas listas de mais vendidos.

Mas, você vive de escrever?

Vivo porque escrevo para jornal. Se eu fosse viver de livro, eu não tenho regularidade, não. Eu posso ganhar um dinheirinho que dure seis meses, depois fico seis meses matando cachorro a tapa. Então o jornal garante mais. Meus livros vendem razoavelmente na Alemanha. E tem outra coisa, fora a Alemanha, os outros países não pagam direito. Normalmente, isso é da prática... Portugal agora está diferente, meu editor é diferente. Mas já depois que meu boom, digamos assim, passou em Portugal, agora estou com editor novo que me paga. Mas, normalmente os países meridionais não pagam nada, a não ser o adiantamento. Então, você vender um livro para a Itália, esqueça. França, Itália... Eles pagam o adiantamento, por que senão não é assinado o contrato. A Espanha já está começando a pagar. Mas, só começa a pagar mesmo da Alemanha para cima. É uma batalha receber o dinheiro e o livro não é tão bem vendido assim.

Qual o seu livro que você gosta mais? 

Eu gosto de todos. Não tenho preferência por nenhum, não. Agora, os mais badalados são Sargento Getúlio e Viva o Povo Brasileiro. A Casa dos Budas Ditosos ainda vende muito bem.

O que você  está pensando em fazer agora? 

Estou com um romance na cabeça. Mas não está muito definido, não. E quando eu tiver agora, não vou fazer mais como fazia antigamente, eu contava. Não conto mais não. Resolvi não contar mais. Agora, tem o seguinte, minha mulher é muito vítima disso. Eu vivo praticamente só com ela. Tenho poucos amigos, saio pouco. Então eu costumo contar uma porção de histórias para ela, achando que aquilo vai dar num livro. Mas, às vezes, quando eu começo, sai inteiramente diferente.

Você  faz o arcabouço da história? 

Eu compro cadernos, faço uma notinha ou outra e acabo não usando nada. Vai saindo pela cabeça, mesmo.

Vale a pena ser escritor no Brasil hoje? 

E eu sei? Se não vale está um pouco atrasado para eu desistir. Setentinha aí chegando... Melhor eu achar que é ótimo!

Que conselho você daria aos jovens escritores?  

Desistam! (risadeira geral)

Qual o autor que você admira? 

Eu leio Shakespeare, Homero. Já li muito Graciliano Ramos, Jorge Amado... Mas não gosto de falar nisso, não.

A literatura muda a vida de alguém?

Outro dia eu soube de uma coisa estranha. Eu tenho um sobrinho que é oficial médico do Exército. Na solenidade de graduação dele, houve um da turma que desistiu no dia. E disse depois que desistiu porque estava lendo um livro meu, chamado Política, que não tem nada a ver com militar, é um manualzinho elementar de política. A vida dele mudou por causa de um livro.

* Fonte: Tribuna do Norte / Carlos de Souza - especial para o Viver, publicado dia 24 de Novembro de 2010